Minha vida após o Estabilizante de Humor...

Minha Vida Após o Estabilizante de Humor

"...sendo a medicação o ponto fundamental no controle da sintomatologia* e prevenção de recidivas*. É importante reforçar que o abandono terapêutico para além de aumentar o risco de recidivas, promove muitas vezes a ineficácia da mesma terapêutica quando se volta a utilizá-la."
*sintomatologia: cl.méd estudo e interpretação do conjunto de sinais e sintomas observados no exame de um paciente.
*recidivas: med reaparecimento de uma doença ou de um sintoma, após período de cura mais ou menos longo; recorrência.

Referência: Revista da associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares
Perturbação Bipolar, guia para doentes e suas famílias. Francis Mark Mondimore. 2003. Climepsi Editores


   Feito a troca da medicação "errada" (antidepressivo) para a correta (estabilizante de humor + outra para ansiedade generalizada), obtive resultado a partir do segundo dia. Senti sono, gente isso mesmo uma hora após tomar a medicação eu senti sono, vontade de dormir e não exitei, larguei meu artesanato e me ajeitei para dormir. Uma noite calma, acordei de madrugada para faze xixi como sempre e eu ainda tinha sono, tem noção do tamanho da felicidade??
  E assim seguiu, um dia após o outro com sono uma hora depois de tomar a quetiapina xr 50mg (mais conhecido como quet).
Maaaas como toda medicação tem seu contra, é claro que o quet também teria. O psiquiatra  ao receitar o quet pediu que eu ficasse sem dirigir até o próximo retorno (20 dias), que eu teria que diminuir e muito o meu café ou trocar pelo descafeinado e zero bebida alcoólica.
Posso dizer que essa frase me corroeu as ideias, como assim ficar sem dirigir por 20 dias??? (vou até no serviço do meu marido com ele e depois venho trabalhar de carro e á noite eu pego ele no serviço. Então ele teve que me trazer  e me buscar) O problema é alguém te "proibir" de algo. Me senti incapaz e dependente de alguém (meu marido).
Diminuir o café??? Tomo de 1 a 2 garradas de café por dia. Descafeinado?? descafeinado é para os fracos, cadê o gosto da cafeina?? e zero bebida alcoólica?? tá loucoo? e nossos eventos de moto quando se reuni a galera e comemos carne bebendo cerveja? e meu jack daniel em casa? e meu vinho com meu marido? e meu vinho no sorvete? Não! Não sou alcoólatra! Mas ficar sem álcool no sangue? da pra viver assim? Claro que da pra fazer isso tudo, basta você aceitar que é para o seu bem, e aceitar que estão de proibindo para você não ter sérias consequências.
  Então me questionei, -diminuir o café? ok! a cafeína faz você ficar agitado e perder o sono, sem álcool? ok! pois o álcool atrapalha o efeito do remédio e pode e vai dar alguma reação.
Agora porque ficar sem dirigir? Escutei o doutor e nem olhei mais para o volante.
Foi ai que tudo começou.... Uma tonturinha aqui, uma vertigem ali, miastenia (fraqueza muscular), comecei a cair, como se perdesse a força das pernas aqui e agora sem aviso prévio. E outra coisa era a coordenação motora, eu estava parecendo uma criança aprendendo a tomar água, a comer, a pegar as coisas no geral. Derramei 700ml de água em cima de mim no serviço porque eu achei que o copo estava encostado na minha boca, mas não estava e quando vi havia derramado o copo inteiro em mim. Outra reação normal da medicação é a hipotensão ortostática (é uma forma de hipotensão em que a pressão arterial de uma pessoa cai abruptamente quando assume a posição de pé ou quando realiza um alongamento. Resumindo: é uma queda na pressão arterial associada ao ato de ficar em pé), então ao me levantar da cadeira no serviço, da cama de manhã, do banheiro, eu esquecia e apenas levantada e lá eu me via quase desmaiando e tentando me segurar nas coisas. Quase desmaiando porque essa tal de hipotensão ortostática é muuuito rápida, ela acontece e vai embora em questão de segundos, e como você esta com a coordenação motora atrapalhada não consegue se segurar e cai.
Outros sintomas que tive foi as palpitações e taquicardia, eu estava calma trabalhando quando do nada sentia meu coração super agitado,  batendo como se eu tivesse acabado de chegar de uma corrida de 5km.
Dispenia, tive muita falta de ar nos 20 primeiros dias.
Sonho anormais, muuuito sonhos anormais e pesadelos. Como por exemplo, sonhar que estava matando um primo (sendo que não tenho nada contra o mesmo), que adotei 10 crianças para morar comigo (sendo que onde moro hoje não tenho nem lugar para colocar 1, imagina 10). Que dinossauros invadiram a terra em pleno século XXI. Acho que deu pra entender né.. hehe
Irritação, siiim e muita. Ainda tive uma crise de irritação com um pessoal que estava trabalhando na sala ao lado de onde eu trabalho. Então lembrei de tudo que minha psicóloga falou, peguei o note e minhas coisas e fui trabalhar em uma mesa na padaria aqui perto. Fiquei sozinha, sem o pessoal da sala ao lado incomodando. Pronto trabalhei de boa, claro ainda irritada, qualquer coisa que eu fazia de "errado" eu me chingava e ficava estressada, mas não explodia com ninguém.
Depois de adulta para não agredir ninguém e descontar a raiva eu acabava me machucando, me mordendo, dando socos e mais socos na parede, me apertando com as unhas, quebrei várias unhas por apertar com tanta força, quando me acalmava vinha as dores. Como minhas unhas estão curtas porque quebrei tudo, coloquei unha postiça de gel. Pronto! não me apertei mais para não estragar as unhas por 2 motivos, eu estava me sentindo o máximo com as unhas e outra que são caras.
Após todas estas reações entendi o porque de ficar sem dirigir...
20 dias depois de tomar o remédio eu estava voltando ao normal (apenas em relação as reações), porque eu estava tendo beeeem menos crise e a intensidade também estavam menores.
  Ao retornar ao psiquiatra ele ficou feliz com o meu relado, como estou reagindo ao tratamento e me liberou apenas no carro, hehe mas já estava bom.
   Um certo dia, fomos visitar um casal de amigos na praia, e jogando sinuca daqui, conversando daqui, sem querer tomei metade do copo de cerveja do meu marido. Baaah, não deu 3 minutos eu estava sentada, minha cabeça começou a girar, meus pés pareciam e eu jurava que estavam flutuando, meu corpo amoleceu não consegui nem falar direito. Quase uma horas depois que essa coisa louca foi passar, tudo por causa de meio copo, sendo que antes nunca tive problema, nunca fiquei bêbada. Então aprendi que álcool e eu não poderemos mais ser amigos.

"...os sintomas da doença bipolar em cada indivíduo são tão únicos quanto individuais, e o tratamento deve ser cuidadosamente direcionado para cada paciente e respectivos sintomas. Não existe qualquer medicamento ou abordagem terapêutica para a doença bipolar que funcione com todos os doentes..."
Referência: Revista da associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares
Perturbação Bipolar, guia para doentes e suas famílias. Francis Mark Mondimore. 2003. Climepsi Editores

 

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